“Fechem as portas e salvem suas vidas”: o vírus estrangeiro chegou aos Estados Unidos

Sílvia Pirttiaho – Sparks, Nevada, EUA
Gustavo Dias – Montes Claros, MG, Brasil

3 de Abril de 2020

I
Acabamos de superar a marca de 1.000.000 milhão de infectados pelo COVID-19. Segundo números apresentados pelo Worldometer – um website que coleta dados estatísticos em tempo real da OMS – nessa sexta-feira (03/04), os Estados Unidos caminham para a casa dos 300.000 casos de infecção, mais de 6.800 mortos e quase 12.000 pessoas que conseguiram se recuperar desse coronavírus. Atualmente, nossos vizinhos no extremo norte são tidos como o novo epicentro da pandemia. O número de mortes, só na quinta-feira (02/04), foram 1.168. O governo estadunidense, assim como o de outros países na América, parece ter demorado a compreender a dimensão desse surto global que, no início, foi declarada como um mero resfriado vindo da China.

Nesse breve texto, trago o relato de Sílvia Pirttiaho, brasileira que vive no interior do estado de Nevada desde 2019. Através de inúmeras conversas que temos tido sobre o espalhamento do vírus nos Estados Unidos, nas últimas duas semanas, até o momento atual, Sílvia tem notado não apenas como as informações produzidas por virologistas e autoridades locais têm apresentado um forte dinamismo, mas, também, como a compreensão sobre esse vírus vem afetando, de forma rápida, a vida de muitos migrantes no país.

Ela lembra-se que, no início do ano, recebiam informações diárias de que uma epidemia por vírus vinha se alastrando na China. Todavia, as notícias eram especialmente direcionadas para o setor de turismo. “Mesmo após a declaração da OMS em 30 de janeiro, ainda não se ouvia nenhum tom de medida preventiva, ou qualquer informação científica a respeito da real gravidade da infecção provocada pelo COVID – 19. Talvez, por falta de dados concretos, liberados pela China, naquele momento, ou por pura incredulidade da imprensa. A preocupação em comparar o COVID-19 com outros vírus como H1N1, SARS ou MERS era sempre no intuito de reiterar que esse coronavírus não representava um real perigo para a saúde, mas que seria, sim, um grande desastre para a economia mundial”. Soma-se a isso, o fato de que “os dados científicos demoraram muito para chegar”. Mesmo diante da enxurrada de notícias e imagens vindas da Itália, o COVID-19 seguia sendo entendido como um perigo não generalizado. Morria a parcela mais velha da população, aquela que, apesar de fazer parte do grupo de risco, não estava tão ameaçada como a economia nacional.

Assim, o governo oscilou entre discursos prepotentes de que a única crise que atingiria a “América” seria a econômica, para acusações contra a imprensa de estar promovendo histeria pública. Contudo, ele viria a mudar abruptamente sua postura, “somente quando os casos começaram a aparecer exponencialmente em todos os Estados Americanos e, especialmente, quando atingiram grandes estados turísticos como a Califórnia, e cidades muito populosas como São Francisco e Nova Iorque”. Em pouco tempo, a ordem de reclusão domiciliar, assim como o vírus, espalhou-se pelo território estadunidense. Junto com eles, o discurso oficial de que os Estados Unidos estavam em guerra contra o coronavírus. “Literalmente, em questão de dias, saltamos de ‘lavem as mãos e preparem seus bolsos’, para um ‘fechem as portas e salvem suas vidas.’”

II
Ao refletir sobre o impacto dessa pandemia no tecido social, Sílvia faz importantes observações sobre o quadro vivido pelos distintos grupos migratórios nos Estados Unidos. Segundo ela, “a comunidade, que vinha amargamente se recuperando de uma verdadeira perseguição ao final de 2019, devido às novas regras de imigração impostas pelo Governo Trump, passou a se questionar, novamente, sobre o seu lugar nessa sociedade, encarando o risco real de ser imigrante em uma situação de emergência global. ”

Retaliações, nesse momento, parecem, também, crescer de forma acelerada pelo país. Em sua leitura, os discursos insistentes do governo associando a pandemia a grupos étnicos – como, por exemplo, o fato de Trump chamar a COVID-19 de “China virus” – e apresentando um viés defensivo e competitivo contra o que é estrangeiro, reverberam fortemente no dia a dia em sua cidade. “Cheguei a escutar de um familiar o quanto foi grosseira, propositalmente, com um asiático, que estava atrás dela na fila do mercado. Disse a ele que deveria manter distanciamento físico das demais pessoas”. Soma-se a isso o fato de que muitos migrantes documentados viram o cancelamento do benefício do Obamacare. Esse programa “representa, para a população de baixa renda, inclusive cidadãos americanos de classes menos favorecidas, a garantia de atendimento, com a tranquilidade de uma conta justa no final do tratamento. É ou era um subsidio repassado pelo governo para que a pessoa pudesse contratar um plano de saúde”

No caso da população migratória indocumentada, ela comenta que o abandono, por parte do governo, também, foi imediato. “Eles nem sequer fazem parte do ‘pacote de incentivos’ do governo contra o COVID-19. Inclusive, os cidadãos americanos que estiverem casados com um migrante que não possua um número de Seguro Social, ou que esteja abrigando alguém nessas condições [indocumentada], em sua casa, também não terão direito de receber o benefício. […]”

Segundo Silvia, o quadro se agrava ao observar que muitos dos migrantes indocumentados ocupam empregos de salário mínimo e que, em virtude da pandemia, a maioria já perdeu seus empregos, devido ao fechamento do comércio e indústrias em geral. Além disso, muitos atravessam a angústia de não saber as possíveis novas retaliações que possam vir depois do término da pandemia, já que uma grande quantidade de migrantes ainda aguarda pela regularização de seu status migratório.

“Muitos perderam seus status e, devido à escassez de informações oferecidas pelo Departamento de Imigração, não se sabe ao certo se essas pessoas devem continuar no país e correr o risco de estarem cometendo algum tipo de infração ou, então, se devem deixar o país e arriscar perder todo o processo. As últimas notícias do Departamento de Imigração são de que o sistema não comporta uma parada em suas atividades. Até os advogados estão inseguros em orientar os seus clientes, e estão adotando a medida de prevenção absoluta de danos”.

Junto com esse impasse, Sílvia, por fim, observa o risco do discurso insistente de Donald Trump em relação à preferência que deve ser dada ao cidadão estadunidense em todos os sentidos. Parece ser consensual “que uma emergência nacional corroborada com uma crise econômica fortaleça ainda mais esse discurso e fragilize ainda mais a comunidade migrante”.