A água sanitária e a Bíblia: o coronavírus em Porto-Príncipe (Haiti)

Nadège Mézié

Campinas, 02 de Abril de 2020

I – Sinal de celular, panelaço e um presente pegajoso

Faz dias que tento, sem sucesso, me comunicar com David pelo WhatsApp. Mais uma vez, ele estava sem crédito e sem dinheiro para comprar mais dados. Ontem à noite finalmente, ele aparece on line, ligo, ele está no trabalho. David é vigia numa firma de segurança privada. Ele trabalha com uma equipe num condomínio próximo ao aeroporto de Porto Príncipe, um terreno que esteve ocupado pela MINUSTAH durante muitos anos e que foi mais tarde atribuído ao Programa Alimentar das Nações Unidas (PAM). Os funcionários estrangeiros, que já não eram muitos nos últimos meses, foram todos embora diante do risco de ficarem presos no Haiti em razão da epidemia. Como os locais estão praticamente vazios, David talvez seja demitido. Ele saberá disso nos próximos dias. Caso seja efetivamente dispensado, David não receberá nenhum auxílio: “Você sabe, o Haiti não tem lei…”. A ligação cai o tempo todo, ele anda procurando sinal, algum sinal, se aproxima de uma mangueira, se afasta da mangueira, chega perto da sua portaria, sai dali. Ele espera, não dá para prever, acha sinal, me liga. Esse é o regime temporal e existencial ordinário na capital (que vai muito além da rede de celular…). Cada corte lembra a ausência de infraestrutura, o Estado que não funciona, as companhias de telefone e seus gordos lucros. Por volta de 20h30, outra interferência atrapalha nossa comunicação, mas não é a falta de sinal desta vez. Do meu lado da linha, é hora do panelaço e meu vizinho participa entusiasmado. A gestão da epidemia pelo presidente do Brasil ampliou e cristalizou o descontentamento com o governo.

Depois de cada nova interrupção, David retoma o fio da conversa onde tinha parado, imperturbável. Ele se indigna com a corrupção, com os “burgueses que enchem os bolsos sabe-se lá como”, com a “sujeira” espalhada por todo o país (Ayiti sal, ele repete inúmeras vezes). Reclama do custo de vida, do fato do país ter de importar alimentos, fala da maldade dos homens e dos feitiços. David sempre quis me fazer entender o “sistema haitiano”. Rodrigo Bulamah explicou no seu comentário (Observatório Cemi no 6) como a pandemia do Covid-19 chega no Haiti em meio a uma crise política, econômica e social que literalmente parou o país. O vírus também chega sem que o país, e especialmente Porto Príncipe, tivesse conseguido de fato se recompor, 10 anos depois, do terremoto de 12 janeiro; chega quando, há pouco ainda, o surto de cólera fazia tantos mortos (outra maladi blan, “doença de estrangeiros”). Eu queria falar com David sobre o vírus, e o cotidiano feito de pobreza e de revolta se impôs na conversa. De uma certa maneira, a chegada do vírus no Haiti não é verdadeiramente um acontecimento. O vírus se funde aos escombros, aos esforços de todo dia para “ganhar um trocado” (brase lajan), ao presente que cola na pele e enreda, aos milhões de dólares de apoio internacional tão presentes e tão invisíveis, às esperanças milenaristas.

II – As igrejas, a Bíblia e a “compreensão das coisas”

Jovenel Moïse, atual presidente, decretou em 19 de março o fechamento das usinas, escolas e igrejas, e proibiu toda aglomeração de mais de 10 pessoas. A resposta ao vírus das autoridades religiosas variou, o que também aconteceu no Brasil, como mostrou Ronaldo de Almeida. A igreja católica aderiu sem protestar e todas as missas e encontros foram suspensos. Os evangélicos têm diferentes posições e algumas igrejas independentes e neopentecostais recusam-se a parar. O profeta Mackenson da Igreja Dieu les Envoyés diz estar pronto para ser preso se necessário: “eu sou o chouchou dos fiéis, eles me dizem ‘te amo’! Quero ver então virem me prender…”. Em outra igreja, diante de jornalistas, fieis evangélicos manifestaram a sua indignação de não poder louvar o Senhor em “tempos apocalípticos”. Em Léogane, a 40 km de Porto Príncipe, o pastor Wilio Daphinis, da Igreja Inode, organizou, logo depois do decreto, encontros de oração coletiva em jejum durante os quais ele declarava que uma desgraça iria se abater sobre a cidade nos próximos dias e 90% da sua população morreria. Um grupo de jovens homens em cólera se colocou na frente da igreja e da casa do pastor, ameaçando linchá-lo. A polícia acabou por prender o líder religioso e uma centena de fieis foi às ruas para pedir sua liberação. Conclamar um linchamento (e realizá-lo) e “tomar as ruas” (prann lari) são formas comuns de agir em momentos de pânico e raiva coletivos no Haiti. Eles se somam à circulação de rumores, acusações de feitiçaria e de zumbificação. Outros pastores convidaram seus seguidores a ficar em casa e a levar a sério as diretivas do governo. Dentre eles, o pastor Jude, que me conta ter fechado as portas do templo alguns dias antes do decreto. Ele tem enviado uma pregação via WhatsApp a seus fiéis todo domingo. E gostaria de oferecer um serviço religioso on line, mas não tem “muito jeito com as tecnologias”. A Bíblia é mais do nunca o livro de cabeceira dos evangélicos que multiplicam nesse momento as citações de versículos, salmos e profecias nas redes sociais e as inscrevem também nas paredes de suas casas (Salmo 91; Marcos 16:16/ 18; 2 Crônicas 7:14). David, entre dois posts atacando Jovenel Moïse, publica passagens mais ou menos longas dos dois testamentos. A Bíblia oferece aos evangélicos reconforto e chaves de leitura para entender o que está acontecendo. Como diz pastor Grégory Toussaint, da Tabernacle of Glory, igreja da diáspora haitiana instalada nos Estados-Unidos: “1 Crônica 12:32. A Bíblia diz que os filhos de Issacar tinham a inteligência dos tempos. É extremamente importante que tenhamos uma compreensão das coisas quando uma situação excepcional assim acontece.” Cabe à religião, como sempre, em tempos de incertezas e de crise aguda, dar sentido ao que se vive e domesticar a ameaça que espreita. A interpretação religiosa neste caso vem mesclada a outras explicações, muitas vezes conspiracionistas, onde se traça uma filiação entre o terremoto de 2010, a epidemia de cólera, o Covid-19: “tem alguma coisa por trás de tudo isso, mas a gente não sabe o que”, me diz uma amiga. Cabe também à religião dar esperança. Alguns pastores se dizem capazes de curar o coronavírus e nas redes sociais já não se contam os relatos de milagres de cura no Canadá, Estados Unidos, Nigéria…

III – Fè pridans: objetos e gestos barreira

David tem que atravessar a cidade em tap-tap (táxi coletivo privado) para ir ao trabalho. Alguns tap-tap definiram um limite de passageiros – e aumentaram proporcionalmente o preço do trajeto. David leva na mochila um pote de sabão líquido que ele encheu com um desinfetante que fabrica em casa. Ele me diz passar nas mãos logo depois de ter encostado num banco, numa barra de metal, numa porta, depois de encostar no dinheiro: “temos que ser prudentes, é o dono do corpo que tem que cuidar do seu corpo”. Ingredientes da sua receita: água sanitária, aquatab (pastilhas de cloro para purificação da água), algumas gotas de amaciante de roupa (santi bon) e um pouco de água “pra fazer espuma”. Nas montanhas do sudoeste as pessoas têm colocado, na entrada da casa, um balde, bacia ou garrafa de 5lts com água com água sanitária, água com folhas de plantas medicinais, ou às vezes só água, com um sabão ao lado, para que a pessoa que chega lave as mãos antes de entrar. Samuel encheu um pote de spray com água com água sanitária e borrifa nas maçanetas das portas e outros lugares que ele acha que a pessoa que entrou pode ter tocado. Daqueles que saíram de Porto-Príncipe por medo da epidemia e vieram para as montanhas, os outros não se aproximam: “a gente não quer encostar neles e eles sabem que não podem circular (sub-entedido: eles sabem que se circularem, boa coisa não vai lhes acontecer…)”. Uma piada tem circulado. O teste do coronavírus no Haiti seria o seguinte: se você tosse em público e que alguém te dá um golpe de facão, é que você era coronapositivo.

As informações aqui relatadas provêm principalmente de conversas via WhatsApp com David, Jude e Samuel, e também do jornal haitiano Le nouvelliste. Agradeço a David e Samuel pelas fotos e vídeo, a Rodrigo Bulamah pelos comentários e a Chantal Medaets pela tradução pra o português.