O avanço da Covid-19 na Tanzânia

Felipe Bastos

Curitiba, 02 de abril de 2020

“Deus nos poupará desse problema” [Mungu atatuwepusha bala hili hatutapata], afirmou confiantemente à imprensa Ummy Mwalimu, ministra da saúde da República Unida da Tanzânia, na ocasião da confirmação do primeiro caso de Covid-19 na África do Sul no dia 07 de março de 2020. Menos de duas semanas depois, em 16 de março, Mwalimu declarou oficialmente o primeiro caso da doença causada pelo novo Coronavírus no país. Tratava-se, tal como se manifestou o padrão de contágio noutras partes do mundo, de um caso “importado”: uma cidadã tanzaniana havia viajado à Bélgica, Suécia e Dinamarca durante o início do mês e desembarcou de volta no Aeroporto Internacional Kilimanjaro (KIA) nas proximidades de Arusha, um dos principais centros turísticos do país. Dois dias mais tarde foram confirmados mais dois casos, um em Dar es Salaam e outro em Zanzibar, que acometeram pessoas provenientes dos Estados Unidos e da Alemanha.

Por mais que os graves riscos associados à pandemia tenham sido desprezados por alguns tanzanianos enquanto uma “gripe de brancos”, como comentou um homem não identificado a uma jornalista alocada em Arusha no dia 17 de março, os efeitos da confirmação de um caso na Tanzânia foram sentidos imediatamente. No dia 17 de março foram anunciados pelo governo o fechamento de escolas, a suspensão de eventos esportivos e a proibição de aglomerações – incluindo comícios políticos num ano de eleições gerais – por pelo menos 30 dias. A corrida às farmácias no mesmo dia do pronunciamento da ministra significou o fim dos estoques de álcool gel em poucas horas em estabelecimentos das principais cidades do país, somado a aumentos vertiginosos no preço de máscaras faciais – caixas com 50 unidades de máscaras cotadas a 10.000 xelins antes da pandemia eram vendidas a 150.000 xelins (aprox. US$ 65,00) no Kariakoo, centro varejista de Dar es Salaam.

As respostas erráticas por parte das autoridades do país não têm sido eficazes em dissuadir o pânico e não passam incólumes pela opinião pública. Se o questionável apelo à intervenção divina por parte da ministra da saúde foi alvo de críticas, muito mais criticada é a insistência do presidente John Pombe Magufuli em não aplicar a proibição a aglomerações em locais de culto, por ele justificada com o argumento de que “o Corona não pode sobreviver no corpo de Cristo, [pois] ele queimará”. Numa carta aberta ao presidente publicada pelo jornal sul-africano Daily Maverick no dia 29 de março, o líder do partido de oposição ACT Wazalendo, Zitto Kabwe, exigiu maior respeito ao papel da ciência na contenção dos efeitos da pandemia e criticou a lentidão do governo na realização de testes para confirmação do Covid-19 e na preparação de um pacote econômico que pudesse mitigar a devastação econômica que deve acompanhar a expansão da doença.

Os aeroportos do país permanecem formalmente abertos para voos internacionais, diferentemente do Quênia, Uganda e Ruanda. No entanto, no dia 22 de março o presidente anunciou que todos os passageiros oriundos de voos internacionais seriam obrigados a se isolar em hotéis por 14 dias às próprias custas, o que gerou confusão no aeroporto de Dar es Salaam uma vez que as diárias nos hotéis escolhidos pelo governo para recebê-los passavam dos US$ 50,00. Por outro lado, o congelamento quase total que afetou companhias aéreas ao redor do mundo em decorrência da pandemia pode ser fatal para a saúde financeira da companhia aérea nacional Air Tanzania, que vinha recebendo aportes significativos a mando do presidente Magufuli. A companhia suspendeu todos os voos internacionais a partir do dia 24 de março, incluindo destinos como Mumbai, Entebbe, Bujumbura e Moroni, e anunciou a suspensão dos planos de estabelecer um voo direto à China continental.

No dia 31 de março foi anunciada a primeira morte pela Covid-19 em Dar es Salaam de um homem de 49 anos que tinha complicações de saúde. No dia seguinte foram confirmadas especulações que circulavam pelas redes sociais identificando o falecido como Iddi Hashim Mbita, filho de uma figura de grande influência na vida política da Tanzânia independente, o general Hashim Mbita. Secretário executivo do Comitê de Libertação da Organização da União Africana de 1972 a 1994, Hashim Mbita esteve profundamente envolvido na coordenação dos esforços prestados pelo governo pós-colonial aos movimentos de libertação africanos exilados na Tanzânia desde meados da década de 1960, dentre os quais se destacam a FRELIMO, SWAPO e o ANC.

Por fim, resta especular sobre a miríade de impactos que devem ser sentidos pelos tanzanianos nas próximas semanas conforme se der o agravamento do contágio local, bem como as condições em que ocorrerão as eleições gerais. É certo, no entanto, que implementar medidas como o isolamento social será um desafio enorme para o governo de Magufuli, que deve estar cioso do alto custo político de se recorrer à brutalidade policial para impor toques de recolher ou quarentenas compulsórias, como evidenciou-se no Quênia ao longo do último fim de semana. Tampouco é possível ignorar as aflições que pairam no horizonte de muitas pessoas conforme a possibilidade de ser posto em quarentena se torna mais palpável, como formulou jocosamente o humorista tanzaniano Idris Alba no Twitter no dia 16 de março: “quanto dinheiro você tem e o que tem na sua geladeira?” [Ulipo una shilingi ngapi na una nini kwenye friji?].

Fontes: Página ITV Tanzania no Facebook (https://www.facebook.com/itvtz/); The Citizen (https://www.thecitizen.co.tz/); Mwananchi (https://www.mwananchi.co.tz/); BBC Swahili (https://www.bbc.com/swahili) The East African (https://www.theeastafrican.co.ke/); The New Humanitarian (https://www.thenewhumanitarian.org/…/coronavirus-tanzania-a…); The Standard Digital (https://www.standardmedia.co.ke); Daily Maverick (https://www.dailymaverick.co.za/…/2020-03-29-a-letter-to-m…/).