“Pandemia e estagnação no Haiti”

Rodrigo Charafeddine Bulamah

Campinas, 01 de abril de 2020

I
No dia 6 de julho de 2018, o governo haitiano publicou um aviso oficial decretando o fim do subsídio ao preço dos combustíveis fósseis em todo o país. Era época de Copa do Mundo e muitos haitianos, fanáticos pelo Brasil, esperavam atentos à transmissão do jogo contra a Bélgica. O que o governo haitiano não levou em conta é que a seleção brasileira seguia em uma de suas piores campanhas da história da competição. Numa desagradável surpresa, a eliminação do Brasil naquele jogo de quartas de final contribuiu ainda mais para a revolta popular no Haiti. Nos dias seguintes, protestos e passeatas seguiram ganhando corpo e tomaram conta das ruas das principais cidades do país, denunciando não só a alta no preço da gasolina, mas também o momento de carestia geral e questionando episódios de corrupção nas esferas do Estado.

Trabalhando no Norte do Haiti desde 2012, o medo de não poder se mover era algo que sempre me chamou a atenção. Em um cotidiano imprevisível, definido constantemente como um “buscar a vida” dentro e fora do país, as pessoas se viram para conseguir um trabalho que lhes garanta o sustento de suas casas e o pagamento de taxas escolares e de compromissos rituais. Para isso, dependem fortemente do abastecimento de motos, carros e caminhões para ir de um povoado a outro e para comprar e vender em feiras e mercados populares. Essa conjuntura somada à crescente alta do dólar e à queda da produção no campo devido aos efeitos das mudanças climáticas, como furacões mais intensos e secas prolongadas, geram um sentimento geral de imobilidade.

II
“Você sabe, Rodrigo, a gente não pode deixar de sair”. Foi com essas palavras que Jorab, meu compadre e amigo, descreveu a situação atual dos moradores de Milot, um vilarejo histórico no norte do país. Desde o avanço do covid-19 pelo Caribe, há diretrizes sendo propostas por órgãos supranacionais, como a OEA e a Unicef, que se somam, com variada eficácia, aos diferentes esforços dos estados nacionais. “A gente ouve que, mundo afora, ao menos estão oferecendo algo para as pessoas comerem e terem algum dinheiro. Mas aqui não há isso”, completou Jorab. “Pra não sairmos, é preciso ter algo em casa e os haitianos não são como formigas”.

Os rumores de uma doença respiratória começaram a chegar ao país por meio de relatos de parentes da diáspora, assunto que logo ganhou as estações de rádio, os aplicativos de comunicação virtual e as conversas cotidianas nas vizinhanças e feiras populares. A necessidade de isolamento social, contudo, foi vista com ceticismo. Não por descrença em sua eficácia, mas por resignação frente a uma situação que não parece nova. Se, em 2012, quando estive em Milot pela primeira vez, muitos definiam o país como bloqueado (blokis), em meados de 2019, novos impasses levaram à criação de uma nova metáfora. O adjetivo trancado (lòk) ganhou as ruas como o termo que descrevia tanto o país (peyi lòk) quanto os corpos da população em geral. Presos, social e existencialmente, “quem está embaixo não pode subir e quem está em cima não pode descer”.

A ameaça de uma nova epidemia também fez ressurgir metáforas históricas sobre patógenos que afetaram o país, como a peste suína africana (PSA), uma doença que afetava a criação de porcos no mundo todo. Entre 1970 e o início de 1980, a epidemia ganhava espaço pelo Caribe e, antes que pudesse chegar aos EUA, foi contida em um esforço conjunto entre Estado haitiano e especialistas estrangeiros, revelando a efetiva capacidade de uma ação estatal coordenada. A guerra aos porcos, como ficou conhecido o episódio, ganhou sua forma mais bem acabada no Haiti e na República Dominicana com virtualmente todos os porcos da ilha sendo exterminados. Os porcos eram, na época, a maior fonte de renda do campesinato haitiano e seu extermínio teve um impacto imenso. Além de gerar angústia e sofrimento, criou novas formas de dependência de mercadorias estrangeiras e levou à busca de novas fontes de renda, como o avanço da produção de carvão vegetal, hoje um dos alicerces da economia camponesa e a principal fonte energética de todo o país.

Para alguns moradores de Milot, todavia, doença sequer existiu. Para outros, ela era resultado da ganância de governantes e criadores dos EUA que queriam ver seus animais chegando aos portos do Haiti e ganhando o país. Como ouvi de diferentes interlocutores, a doença havia sido manufaturada assumindo a forma de um pó que era dispersado desde aviões e helicópteros.

III
Alguns dias atrás, falando outra vez com Jorab, ele repetiu um argumento parecido: “Dizem que são os Estados Unidos que estão largando um pó de aviões que passam por aqui”. De fato, agentes nocivos em pó são uma das principais formas de causar enfermidades no Haiti. Resultado de uma combinação de técnicas e materiais mágicos, esses artefatos agem de maneira simpática podendo afetar as hortas e as criações de uma pessoa, a sua sorte no comércio e, em casos extremos, seu fluxo vital. Não por acaso, o vocabulário mágico no Haiti é carregado de metáforas sobre a imobilidade. Barrar, amarrar e conter são expressões que falam de estados corporais, mentais e sociais interrompidos. Isso ganha sentido quando levamos em conta que o movimento é o elemento central na constituição das relações sociais, tanto na troca cotidiana entre vizinhos e parentes, criando e nutrindo pessoas e relações de mutualidade, quanto na constituição de mercados populares que costuram, dentro e fora do país, uma paisagem socioeconômica ampla, diversa e relativamente autônoma.

Diferente da peste suína africana, o covid-19 cruzou a fronteira entre animais e humanos ganhando o estatuto de zoonose. Sua origem, contudo, é entendida como similar. Ambas as doenças repetem a narrativa de que o Haiti é alvo dileto de ações de países estrangeiros que, desde os tempos coloniais, buscam extrair o máximo de lucro das paisagens e vidas haitianas. Com o avanço da doença que ganha o país como um pó nocivo e a necessidade de reclusão e isolamento social, adensam-se ainda mais a sensação de estagnação e de perigo. Mais do que qualquer outra metáfora, estar trancado representa a um só tempo um estado temporal e existencial: não só a perda definitiva da capacidade de prever o curso dos dias, mas também o fim da autonomia para movimentar-se e fazer as coisas circularem. Propor medidas de contenção do vírus passa, nesse sentido, por garantir a capacidade das casas conseguirem se manter minimamente, algo que seria possível se imaginássemos que parte do dinheiro gerido por ONGs, pelo Estado e por órgãos supranacionais pudesse de fato chegar aos haitianos e haitianas, seja por meio de investimentos em saúde pública ou através da transferência direta de renda. Do contrário, o vírus vai se tornar somente mais um episódio de sofrimento entre camponeses e citadinos pobres que, historicamente, referem-se a si mesmos como desafortunados (malere).