Pandemia, autocracia e memória em Budapest

Gábor Basch

30 de março de 2020

I
Inicialmente, as primeiras notícias do surto de um novo vírus em Wuhan tiveram impacto reduzido na Hungria. Tratava-se, afinal, de uma consequência de hábitos gastronômicos exóticos, nada comparáveis às iguarias húngaras como a linguiça de cavalo ou cérebro de porco à páprica. Já a partir de fevereiro, com a chegada do vírus na Itália e na vizinha Áustria e o surto no Irã, o governo reforçou ainda mais a propaganda que vem fazendo desde a “crise migratória” de 2015, segundo a qual George Soros, o filantropo e investidor “judeu de origem húngara”, estaria incentivando, por meio de financiamento de ONGs e universidades como a Central European University ou de seu poder de lobby em Bruxelas e no deep state norte-americano, a migração muçulmana para Europa para assim acabar com a cultura europeia e húngara, aquela cristã, civilizada e branca.

Apesar dos inúmeros rumores circulando nas redes sociais sobre húngaros que teriam voltado da Europa Ocidental e estariam internados com pneumonia, o coronavírus, de acordo com as informações oficiais, chegou à Hungria no início de março por meio de um estudante intercambista iraniano. Os meios de comunicação públicos (seis canais de tv e quatro estações de rádio), assim como o imenso portfólio de imprensa impressa e digital do Mediaworks Hungary (propriedade de Lőrincz Mészáros que, além de encanador de gás e amigo de infância do primeiro-ministro Orbán, tornou-se nos últimos 10 anos o homem mais rico da Hungria, investindo parte do seu dinheiro na compra de todos os jornais provinciais, diversos portais online e revistas semanais) passaram a vincular a migração ao avanço do vírus. O estudante iraniano foi colocado em quarentena numa sala comunitária da moradia estudantil junto com pelo menos outros dez estudantes, também iranianos. Da quarentena coletiva, é claro, muitos saíram coronapositivos, o que reforçou ainda mais a campanha antimigratória cruel feita pelo governo nos últimos 5 anos. Na última semana de março, porém, o sequenciamento do vírus feito na Universidade de Pécs desmentiria a campanha oficial: nenhuma das cepas do vírus em circulação na Hungria é proveniente do Irã, e sim de Reino Unido, Holanda, Espanha, Itália e Croácia.

Enquanto isso, os números de infectados e casos suspeitos foram subindo como no resto do mundo. Os números da Hungria são menores quando comparados aos dos países vizinhos com indicadores socioeconômicos ou demográficos semelhantes (447 casos reportados, 15 óbitos, e um número ínfimo de testes: 13.301 no momento da escrita, ou seja, 1.300 testes para cada milhão de habitantes). É preciso notar também o estado lamentável do sistema húngaro de saúde, totalmente despreparado para uma epidemia e duramente afetado pela ausência de investimentos públicos e pela migração massiva de médicos e enfermeiros que hoje trabalham na Áustria, na Alemanha e no Reino Unido.

Finalmente, o governo do primeiro-ministro Orbán aproveitou a situação emergencial e hoje, 30 de março, aprovou a lei sobre o “estado de emergência” no Parlamento, onde tem a maioria absoluta de 2/3 necessária para a aprovação. Não custa notar que, desde 2016, está em vigor um decreto emergencial pela “crise causada pela migração de massa”, renovado a cada semestre pelo Parlamento – apesar do país ter recebido apenas 400 pedidos de asilo em 2019!

O estado de emergência promulgado pela nova lei pouco acrescenta à excepcionalidade do “decreto antimigratório”, muito menos à luta contra o avanço do vírus. Suspende-se o poder legislativo e o governo passa a legislar por meio de decretos, unicamente supervisionados pela Corte Constitucional, cujos membros atuais foram todos indicados pelo partido de Orbán, o FIDESZ. Suspendem-se todas as eleições até o fim do estado de emergência, o qual dependerá unicamente do executivo. O novo decreto também torna crime, com pena de até 5 anos de prisão, a fuga ou o desrespeito à quarentena oficial e a difusão de fake news, isto é, de qualquer “notícia que possa dificultar ou impedir a defesa” contra a pandemia.

As medidas até poderiam ser plausíveis para uma situação emergencial. Mas só se desconsiderarmos o histórico do governo Orbán, que tem usado sua maioria parlamentar para o desmantelamento completo da democracia húngara que, segundo os indicadores mais recentes do Instituto V-Dem (www.v-dem.net), tornou-se a primeira autocracia dentro da União Europeia. Agora, o receio não é só pelo estrago que o novo coronavírus vai fazer, mas também pelo risco iminente da prisão de jornalistas e do fechamento dos escassos meios de comunicação ainda independentes (três portais online, um jornal impresso e três revistas semanais), referidos pelos membros do governo e seus simpatizantes como “agentes liberal-bolcheviques de George Soros”, e que ainda se atrevem a questionar as medidas tomadas e os números oficialmente divulgados.

II
Curiosamente, e ao contrário do que se observou inicialmente na Itália, na Espanha ou no Brasil, a população tem seguido com bastante disciplina as recomendações da OMS, agora já endossadas pelo governo e autoridades sanitárias húngaras, de isolamento social e quarentena voluntária.
Com meu grupo de amigos e conhecidos, em sua maioria nascidos no final dos anos 1970 e início dos 1980, lembramos imediatamente de 1986. Como é sabido, em abril daquele ano aconteceu a catástrofe nuclear de Chernobyl, na vizinha Ucrânia. O governo socialista da época, com medo do esvaziamento das marchas e passeatas oficiais do 1º de Maio, não havia informado a população. Em vez de notícias, corriam rumores: “O pai do primo de fulano que trabalha no Instituto Meteorológico avisou para não comermos alface, pois há muito radiação no ar”; “O avô de sicrano, que ouve a Rádio Europa Livre às escondidas e de madrugada, disse que o acidente foi muito mais grave, e não apenas um pequeno defeito, como relatou o Liberdade do Povo, jornal oficial do partido”.

Sobre o acidente nuclear, nunca soubemos detalhes mais concretos. Havia, sim, uma percepção generalizada da fragilidade do Estado húngaro e de seus patrões soviéticos. Todos nós também nos lembramos de como, no inverno daquele ano, nossos pais estocaram quantidades extras de comida, geralmente dois sacos de 50 quilos de batata, que podiam ser guardadas nas temperaturas amenas dos porões sem maiores estragos. Em janeiro de 1987, as medidas revelaram-se extremamente úteis, pois uma extraordinária nevasca cobriu o país e a temperatura caiu a 30°C negativos. Estávamos diante de uma crise de abastecimento de mercados, fechamento dos locais de trabalho e férias escolares de 10 dias.

Mas a memória familiar e coletiva também vai muito além do inverno de 1987, e a quarentena está acionando outros traumas do passado. András, o pai de uma amiga, é quem me diz: “Nasci no gueto de Budapeste, o corona não vai me vencer. É só ficar dentro de casa. Posso até ouvir música e ler meus livros. Naquela época, vivíamos confinados no porão do nosso prédio no gueto, havia um surto de febre tifoide, racionamento de pão (150 gramas diários por cabeça) e soldados nazis e húngaros caçando judeus e bombas caindo no final da guerra”. De fato, quase 70 mil judeus sobreviveram a II Guerra Mundial confinados nos prédios dos pouco mais de dez quarteirões do Gueto de Budapest, localizado no atual Distrito 7. Em outras partes da cidade, a memória acionada diz respeito ao bombardeio e ao cerco de Budapeste ao final da Guerra, quando, durante 50 dias, tropas do exército romeno e do Exército Vermelho cercaram a cidade, cortaram as linhas de abastecimento e colocaram a cidade sob intenso fogo de artilharia. A população civil, tal como aqueles confinados no Gueto, buscou refúgio nos porões dos prédios. Também circulam nas redes inúmeras narrativas sobre a Revolução de 1956, quando, novamente, a cidade esteve sob fogo soviético, e era todo um desafio conseguir remédios, comida ou até sair de casa.

Talvez estas reações, e não um governo autoritário imerso nas artimanhas de poder e na suspensão da democracia, que vão melhor proteger a população de Budapeste. Ao contrário do Mediterrâneo espanhol, italiano ou grego, onde, em momentos de crise, a população tende a se aglomerar e ir para a praça pública, a preferência tem sido por se isolar e desconfiar das autoridades estatais.