Israel, Covid-19 e Informação

Denise Monzani da Rocha

Campinas, 30 de março de 2020

O primeiro caso positivo para coronavírus em território israelense foi registrado em 21/02, a partir de um grupo de 11 pessoas que, surpreendidas em meio a uma viagem, retornaram a Israel depois de terem ficado 14 dias em quarentena em um navio na costa do Japão. Assim como em outras partes do mundo, o quadro foi se transformando com rapidez e as medidas adotadas pelo governo interino israelense para enfrentar a pandemia vêm sendo atualizadas com frequência. Neste momento, com os casos confirmados tendo alcançado a marca de 4.347 e subindo às centenas a cada dia, o país se encontra a um passo do “total lockdown”. Apenas cidadãos e residentes estão autorizados a entrar em Israel, sendo que estrangeiros, em situações excepcionais, podem receber uma permissão especial para fazê-lo. Os israelenses estão proibidos de deixar suas casas, exceto para atender às necessidades consideradas essenciais, que incluem: compra de comida ou medicamentos, serviços médicos ou veterinários, serviços sociais, doações de sangue, manifestações políticas e comparecimento a cortes ou ao parlamento. Foi requisitado que pessoas que não residem juntas mantenham uma distância de 2 metros umas das outras e saídas rápidas estão limitadas a um raio de 100 metros da residência. Templos religiosos foram fechados e eventos da vida como casamentos e funerais só podem acontecer em espaços abertos, com a presença de no máximo 20 pessoas. Mulheres podem continuar frequentando o mikveh (banho ritual), desde que agendem previamente um horário. O não cumprimento dessas demandas é considerado violação criminal e pode ser punido com multa.

Dividindo a atenção com a grave crise política israelense – na qual 3 processos eleitorais em um período inferior a 1 ano falharam em viabilizar a formação de um governo permanente e que agora, sob os auspícios da pandemia, caminha para um governo emergencial de unidade nacional –, a imprensa israelense vem destacando a resistência de comunidades de judeus ultra-ortodoxos às determinações de distanciamento social. Relutando em fechar sinagogas e especialmente yeshivot (instituições de ensino de textos religiosos), essas comunidades estão apresentando uma taxa de crescimento de casos da Covid-19 expressivamente superior à média nacional. Uma das dificuldades identificadas é fazer chegar a esses grupos as informações que circulam nas mídias de massas, as quais a maioria deles não acessa. Meios como panfletos e mensagens transmitidas por veículos com alto-falantes estão sendo usados para melhorar a comunicação. No entanto, uma fala do ministro da saúde israelense, Yaakov Litzman, ele mesmo ultra-ortodoxo e membro da aliança

United Torah Judaism, pode sugerir uma outra dimensão para a questão. Quando questionado se os israelenses ficariam em quarentena até o Pessach, feriado que marca a libertação do povo hebreu do Egito e que neste ano tem início em 08/04, o ministro respondeu: “nós estamos rezando e esperando que o Messiah chegue antes do Pessach, tempo de nossa redenção. Eu tenho certeza que o Messiah virá e nos tirará assim como (Deus) nos tirou do Egito. Em breve sairemos em liberdade e o Messiah virá e nos redimirá de todos os problemas do mundo”. Isso vai de encontro ao que muitos rabinos vinham afirmando, que a Torah os protegerá.

A imprensa também vem pautando um debate sobre democracia e o uso de tecnologias no combate à pandemia. Com o alegado propósito de alertar vítimas potenciais que estiveram na rota de pessoas com a Covid-19 e de fazer cumprir a quarentena, o governo interino israelense aprovou, há poucos mais de 10 dias, regulações de emergência que permitem a coleta de informações sobre a localização de celulares e outros dados pessoais dos pacientes que testaram positivo para o coronavírus e também dos pacientes suspeitos. Separadamente foram aprovadas regulações para que a polícia e o Shin Bet, serviço de segurança israelense, tenham acesso a essas informações e atuem em cooperação com o Ministério da Saúde. Essas medidas, que coadunam o campo da saúde pública e o da segurança, foram criticadas por especialistas, uma vez que, atualmente em Israel, estão em vigor legislações que protegem o uso de dados, mas não a coleta e o processamento deles. Pesquisadores do Israel Democracy Institute ponderaram que o envolvimento do Shin Bet, que opera como serviço secreto e tem a prerrogativa da confidencialidade, prejudica a transparência que deve reger a relação entre um Estado democrático e todos aqueles sob sua responsabilidade. Esses pesquisadores afirmaram a necessidade de defender o direito à privacidade, tanto em tempos de pandemia, como nos dias futuros.

As mídias consultadas são o jornal Haaretz, The Times of Israel e Jerusalem Post. As informações diretamente citadas são do sítio eletrônico do Ministério da Saúde de Israel e do jornal Haaretz.