“Hiva nimphela ovirela elapo”: outra forma de distanciamento social contra o Coronavírus à moda makua em Montepuez, Norte de Moçambique

Zacarias Tsambe

Montepuez, 29 de março de 2020

20 de março de 2020. Quando chegava a casa do Mwene* Mafujiaje, onde estava montada a palhota em que me acomodava durante as minhas estadias de trabalho de campo em Namanhumbir, no Distrito de Montepuez, província de Cabo Delgado à Norte de Moçambique, um silêncio incomum para um lugar que me habituara a uma frequente presença de crianças e jovens da aldeia, que apareciam nos fins da tarde para assistir telenovelas e filmes antigos de comandos americanos.

Tendo ficado todo dia sem comunicação, não dava para imaginar o que se passava e provocara o estranho silêncio. Era uma situação que eu nunca havia presenciado durante o dia, em todo período da minha estadia em Namanhumbir. Mwene Mafujiaje aparece para a porta da minha palhota e inicia a conversa: “O presidente falou há pouco na Televisão. Dizem que essa tal doença da China já chegou em Moçambique. Vão encerrar as escolas em todo país a partir da segunda feira. Até a sua Universidade lá na cidade, vai fechar, pelo menos durante 30 dias, dizem que é para controlar a situação. Ninguém deve sair de casa até tudo isso passar (…) estás a ver meu filho: são esses vientes**. Nós não tínhamos isso aqui. Só ouvíamos na televisão. Agora que as férias acabaram, as chuvas estão a parar, estão todos a voltar para cortar madeira e trazem junto essas doenças deles. Pior aqui onde está cheio de chineses lá nos estaleiros de madeira. De certeza que já chegou aqui em Montepuez. Podemos não saber por causa desse nosso Hospital que não é de nada (…), mas essa doença já chegou aqui meu filho”.

Dois aspectos merecem um esclarecimento. O primeiro: na verdade até a data em referência aqui (20 de março) Moçambique ainda não havia registado nenhum caso positivo de Covid-19. De todos os casos suspeitos que tinham sido testados, os resultados haviam dado em negativo. No entanto, com a confirmação de casos positivos nos países vizinhos (África do Sul, Tanzânia, Reino de Eswathine e Zimbabwe), o governo já havia decretado anteriormente algumas medidas consideradas de precaução contra a propagação do vírus, restringindo a entrada e saída de voos internacionais de e para países considerados de alto nível de contaminação. O segundo: é que o anúncio de “última hora” do Presidente da República ao qual o mwene se referia não falava ainda de confirmação de nenhum caso positivo, mas do reforço e agravamento das medidas anteriormente anunciadas, com o destaque, sim, para o encerramento de todas instituições de ensino (do primário ao superior) e a atualização da lista de países considerados de alto risco de contaminação e a inclusão de outros novos no mapa, e sua devida categorização em níveis para alerta.

Aqui, mais uma vez os nativos de Namanhumbir, nos apresentam alguns vientes como a figura percutora do mal das aldeias: forasteiro, forte com suas idas e vindas a vários lugares do mundo, não traz luzes, escolas e desenvolvimento para a comunidade que o acolhe, mas doenças sobre as quais seus anfitriões conheciam apenas pela televisão. Mwene conta-me também que depois de ouvir o anúncio do Presidente, convidou outras lideranças das aldeias e algumas pessoas influentes (curandeiros e conhecedores de raízes curativas) para pensar como a aldeia reagiria ao vírus que se espalha pelo mundo. “Esses que conhecem as raízes dizem ‘hiva nimphela ovirela elapo’ (nós precisamos nos cercar). Essa doença já chegou aqui. Dizem que não têm remédio ainda. Se um de nós apanhar, vamos morrer todos aqui, porque nem vale a pena ir ao hospital. O que podemos fazer é chamar aqueles que podem amarrar o mal lá fora para não entrar aqui na aldeia. Precisamos nos cercar, só isso”.

A palavra ovirela, dizem os macuas, significar “cercar”, “passar a volta” ou “rodear”, e elapo: “terra”, “território” ou “povoação”. Portanto ovirela elapo, é um rito de protecção do território, dos feitiços (ukwiri) ou dos maus olhares dos inimigos da própria comunidade ou do território.
À moda de Namanhumbir e seus nativos, a proposta que nos é apresentada pelo chefe da aldeia de Nanune de “nos cercar” é institucionalmente a escolhida por vários países do mundo: “se fechar”. Foi se fechando nas casas e inibindo a entrada ou saída pelas suas fronteiras que muitos países conseguiram rapidamente controlar a propagação do vírus nos seus territórios. Para os nativos de Namanhumbir, sem fronteiras para controlar o acesso de quem vem ou sai, é preciso encontrar entre seus sábios e saberes tradicionais as formas de protecção com uma “cerca” para estancar o mal que se espalha pelas aldeias e para o mundo.

* Mwene: referente a régulo. É um líder local, responsável por uma povoação ou grupo clânico.
** Viente: é uma categoria local usado entre os nativos de Montepuez, para categorizar os estrangeiros ou os demais indivíduos não nativos da comunidade local.