“Fazer mais como? Se problema estamos com ele…”: o coronavírus em Moçambique

Marílio Wane

Maputo, 28 de Março de 2020

Assim como em todo mundo, para os moçambicanos, a preocupação em relação à propagação do Covid-19 foi aumentando em função da aproximação geográfica do vírus. Pode se dizer que, nos seus estágios iniciais, quando grassava sobretudo pela Ásia e pela Europa, a percepção sobre a pandemia era ainda algo distante. Entretanto, a partir do momento em que, há cerca de um mês, registraram-se os primeiros casos na África do Sul, o “coronavírus” passou a tornar-se uma realidade próxima dos moçambicanos. Isto porque há um grande contingente populacional residente no país vizinho resultante do histórico fluxo massivo de trabalho migratório de cá para lá.

Conforme noticiado pela imprensa, na última quinta-feira (26/03/2020), cerca de 23.000 imigrantes moçambicanos dirigiram-se à fronteira de Ressano Garcia (a 150km de Maputo, capital de Moçambique) para tentar regressar ao país em função do lockdown (quarentena obrigatória) decretado pelo governo local. De tal maneira que há uma preocupação difusa de que muitas destas pessoas possam trazer consigo o vírus para o país, uma vez que a África do Sul registra casos da doença há mais tempo.

O primeiro registro oficial de coronavírus em Moçambique foi anunciado no último domingo (22/03/2020) pelo Ministério da Saúde, dando conta de um indivíduo de cerca de 75 anos de idade infectado durante uma viagem oficial recente a Londres. Curiosamente, este fato acabou por ganhar contornos políticos, uma vez que o tal indivíduo pode ser o atual Presidente do Conselho Municipal de Maputo, cuja esposa (que o acompanhou na viagem) admitiu publicamente estar infectada. A situação teve uma repercussão bastante negativa na opinião pública, que ainda espera por maiores esclarecimentos por parte das autoridades.

O dado concreto é que, ainda segundo fontes oficiais, até este momento (28/03/2020), existem oito casos de positivos para o coronavírus em Moçambique. Entretanto, há no senso comum, a ideia de que a baixa capacidade de diagnóstico existente no país (dez testes por dia) indica haver um número muito maior de casos. Para além do alto grau de subnotificação presumível para a realidade de um país como o nosso, a precariedade geral das condições de vida – habitação, saneamento, transporte público, alimentação, etc – são vistos como fatores que, certamente, agravarão a situação a partir do momento em que o vírus se alastrar pelo país. O mesmo aplicase à precariedade geral do sistema nacional de saúde.

As primeiras medidas mais duras adotadas pelo país, na última sexta-feira (20/03/2020), foram o fechamento de escolas, restrição do tráfego aéreo e intensificação das práticas de higiene, acompanhadas de maior isolamento social. Tal quadro deve se reforçar nos próximos dias, uma vez que ontem (27/03/2020) o Conselho de Estado recomendou à Presidência da República a instauração de Estado de Emergência que, entre outras coisas, torna obrigatório o isolamento social. Sobre este aspecto, há uma descrença generalizada quanto à sua eficácia, tanto do ponto de vista da capacidade de implementação das autoridades, quanto ao nível do comportamento dos cidadãos, por diversas e complexas razões. Enfim, como em todo o mundo, as perspectivas são bastante pessimistas.